Quando falamos de Israel e Palestina, muitos pensam imediatamente nos noticiários recentes, nas tensões políticas e nos bombardeios. Mas o que talvez poucos saibam é que essa história não começou agora, ela vem de milênios.
As guerras que marcam o território de Israel são, na verdade, capítulos sucessivos de um mesmo drama humano: a luta pelo direito de existir e, sobretudo, a dificuldade dos povos em viver em paz.
Mas, antes de criticar o governante A ou B, é preciso perguntar: sou um agente da paz ou da discórdia? Porque, afinal, há pessoas que não lançam bombas, mas lançam palavras destrutivas. E estas também matam.
A primeira guerra hebraica: Abraão e os reis da Mesopotâmia
A primeira guerra hebraica registrada na Bíblia está em Gênesis 14. Um grupo de quatro reis da Mesopotâmia invade o vale de Sidim (região do Mar Morto) e leva consigo os habitantes de Sodoma, entre eles Ló, o sobrinho de Abraão.
E o que faz o patriarca? Reúne 318 homens nascidos em sua casa e parte para libertar os cativos. Ele vence a batalha e traz todos de volta, mas aqui vem um detalhe notável: Abraão recusa os despojos da guerra.
“Não aceitarei nada de ti, para que não digas: eu enriqueci a Abraão.” (Gn 14:23)
Esse gesto mostra que Abraão não era um conquistador armado, mas um homem de fé.
Ele lutou apenas para libertar, e não para acumular. Era um líder que acreditava que sua prosperidade viria de Deus, e não da espada.
Curiosidade: os reinos que invadiram Canaã vinham da região que hoje corresponde ao Iraque e parte da Turquia, a mesma origem étnica dos semitas. Ou seja, Abraão e seus inimigos eram parentes distantes. A primeira guerra bíblica já começa, portanto, com um conflito entre irmãos.
Josué e a reconquista de Canaã
Séculos depois, sob a liderança de Josué, Israel volta à terra prometida. Mas é importante usar a palavra certa: não foi uma conquista, e sim uma reconquista.
Por quê? Porque Abraão, Isaque e Jacó haviam adquirido terras em Canaã legalmente, muito antes da escravidão no Egito.
Durante os séculos de ausência, o Egito havia tomado posse da região e instalado milícias egípcias em várias cidades, como Jericó e Hatsor. Quando Josué chega, encontra inimigos dispostos a impedir o retorno do povo hebreu. As batalhas, portanto, não foram ofensivas, mas defensivas e libertadoras.
Curiosidade: Arqueólogos encontraram em Tell el-Amarna (Egito) cartas do século XIV a.C. relatando revoltas em Canaã e justificando ações de autodefesa. Uma delas traz o provérbio:
“Mesmo a formiga, quando ferida, revida.”
Um reflexo exato do contexto em que Israel guerreava.
O período dos Juízes
Após a morte de Josué, Israel vive um tempo de instabilidade e infidelidade espiritual.
Os povos vizinhos, moabitas, amalequitas, filisteus, constantemente atacavam as tribos.
E Deus, em Sua misericórdia, levantava líderes chamados “shofetim” — os juízes.
Eles não eram magistrados, mas libertadores: Débora, Gideão, Jefté, Sansão.
O padrão se repete o tempo todo:
Pecado → Opressão → Clamor → Libertação.
Era um ciclo que mostrava o quanto o povo precisava depender de Deus.
As guerras desse período não foram guerras de conquista, mas de resistência. Israel lutava para sobreviver em meio a inimigos que queriam riscá-lo do mapa.
Reis, unidade, expansão e divisão
Com a monarquia (Saul, Davi e Salomão), Israel tenta se consolidar como nação. Saul foi o primeiro rei, mas é com Davi que o território se unifica e se expande. Davi, apesar de suas falhas, é lembrado como “homem segundo o coração de Deus”, e mesmo assim viveu as consequências de suas escolhas.
Salomão, por sua vez, preferiu a diplomacia à guerra. Seu reino foi próspero, mas terminou dividido por causa de impostos abusivos e alianças pagãs. E foi aí que começou uma das maiores feridas da história hebraica: a divisão do reino.
Após a morte de Salomão, o reino se parte:
Reino do Norte (Israel) – governado por Jeroboão
Reino do Sul (Judá) – governado por Roboão
A partir daí, a história de Israel se torna uma sucessão de guerras civis, traições e alianças equivocadas. O ponto mais trágico é quando Israel pede ajuda à Síria para atacar Judá e Judá, em resposta, pede auxílio à Assíria para contra-atacar. Em 722 a.C., a Assíria invade o norte e o destrói completamente. O reino de Israel desaparece, e apenas Judá permanece.
A queda de Jerusalém e o cativeiro da Babilônia
O império babilônico surge como nova potência mundial. Em 586 a.C., Nabucodonosor destrói Jerusalém, queima o templo e leva os judeus cativos.
Durante o exílio, o povo aprende uma lição: eles perderam o templo, mas descobriram que Deus não estava preso a um edifício. Ali renasce a fé que sobreviveu aos séculos, a fé no Deus único.
Curiosidade: escavações em Jerusalém revelaram camadas de cinzas datadas desse período, indicando temperaturas acima de 500°C, capazes de derreter metais, exatamente como o texto bíblico descreve.
Esdras, Neemias e os Macabeus
Sob o domínio persa, o rei Ciro autoriza o retorno dos judeus e a reconstrução do templo. Mas a obra é feita com dificuldade:
“Com uma mão seguravam a espátula, com a outra, a espada.” (Ne 4:17)
Mais tarde, sob o domínio grego, Antíoco Epifânio profana o templo, oferece um porco no altar e proíbe a prática da fé judaica. É o estopim da revolta dos Macabeus (167–160 a.C.), liderada por Matatias e Judas Macabeu. Eles vencem e restauram o culto, evento lembrado até hoje na festa de Hanucá.
Curiosidade: o nome Macabeu vem de makabá, “martelo”, em referência à força e persistência de Judas nas batalhas.
Roma e a destruição do Segundo Templo
Em 63 a.C., o general Pompeu conquista Jerusalém. Mais tarde, Herodes, aliado dos romanos, assume o trono — meio judeu, meio idumeu, e totalmente político. Foi um tempo de opressão, impostos e revoltas.
Em 70 d.C., o general Tito destrói Jerusalém e o Segundo Templo, cumprindo a profecia de Jesus em Mateus 24. Flávio Josefo relata que milhares foram crucificados e a cidade virou cinzas. O último foco de resistência foi Massada, onde quase mil judeus preferiram morrer a se tornarem escravos.
Adriano e o nascimento do nome “Palestina”
No século II, após a revolta de Bar-Kokhba, o imperador Adriano muda o nome da terra de Israel para Síria Palestina e transforma Jerusalém em Elia Capitolina. Seu objetivo era claro: apagar a identidade judaica da região.
Ele ergue templos pagãos sobre o Monte do Templo e sobre o local do Calvário. Mas, ironicamente, foi esse gesto que manteve viva a memória da terra prometida — pois cada exílio reacendia no povo o desejo de voltar.
Do Império Otomano ao Estado de Israel
Pulando para a era moderna: com a queda do Império Turco-Otomano no início do século XX, a região foi dividida pela Liga das Nações e entregue ao mandato britânico.
Em 1947, a ONU propôs a criação de dois Estados, um judeu e um árabe.
Os judeus aceitaram. Os países árabes recusaram. A partir daí, Israel lutou sucessivas guerras:
- Guerra da Independência (1948)
- Crise do Canal de Suez (1956)
- Guerra dos Seis Dias (1967)
- Guerra do Yom Kippur (1973)
- Conflitos no Líbano, Intifadas e as guerras recentes em Gaza.
Ao comentar o recente acordo mediado por Donald Trump, ressaltei que precisamos evitar o sensacionalismo profético. Há semelhanças entre o papel dos Estados Unidos e a “besta da terra” de Apocalipse 13? Talvez. Mas não podemos carimbar nomes enquanto a profecia ainda está em curso.
O que podemos afirmar é que a paz firmada entre inimigos é sempre frágil e que o verdadeiro desafio não é político, mas humano. Deixo três lições para reflexão:
- A paz começa dentro de nós.
Antes de criticar líderes mundiais, pergunte: sou promotor da paz onde vivo?
- Vivemos um conflito cósmico.
As guerras da Terra são reflexos do conflito entre o bem e o mal.
- A verdadeira paz vem de Cristo.
“A minha paz vos dou, mas não como o mundo a dá.” (João 14:27)
Cito também a oração atribuída a São Francisco de Assis:
“Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz…”
Esta paz deve ser uma prática diária. Se cada um de nós se tornar um agente da paz de Cristo, o mundo já terá vencido sua maior guerra.






3 respostas
Quero aprender mais sobre a bíblia para aumentar meus conhecimentos bíblicos e nunca se esquecer do senhor
Eu louvo a Deus, por te usar para nos instruir, de maneira sábia, fazendo essa sucessão de acontecimentos, pois vemos como nos posicionar nesse conflito cósmico . E podermos compartilhar a tempo para pessoas que precisam conhecer a verdade. Admiro demais sua competência e equilíbrio.
Deus continue te usando poderosamente. Graça e paz.
Parabéns, este artigo além de espiritualmente revelador, é uma verdadeira aula de história.