Samaria — já ouviu esse nome, certo? Se você cresceu ouvindo histórias bíblicas ou já leu o Novo Testamento, é provável que tenha topado com essa antiga província montanhosa, situada entre a Judeia e a Galileia. Mas há muito mais por trás de Samaria do que uma simples localização geográfica. Ela carrega uma narrativa fascinante — e, por vezes, conflituosa — sobre identidade, fé e pertencimento.
Hoje, a região onde ficava Samaria está dividida entre Israel e a Cisjordânia. E, acredite se quiser, ainda existem cerca de 700 samaritanos vivendo por lá — metade em Holon (Israel) e a outra metade em Nablus (Cisjordânia), próximo ao lendário Monte Gerizim.

Samaria no mapa bíblico e moderno
Na época de Jesus, Samaria era uma província localizada no alto de um monte, estrategicamente entre a Judeia (ao sul) e a Galileia (ao norte). Isso tornava inevitável que os judeus, ao viajarem de um ponto ao outro, tivessem que passar por Samaria — o que nem sempre era visto com bons olhos, considerando a rivalidade religiosa entre judeus e samaritanos.
Atualmente, a antiga Samaria ocupa uma região dividida entre o Estado de Israel e a Cisjordânia (território palestino). A cidade moderna de Nablus, por exemplo, está localizada na área onde ficava a Samaria bíblica.
Quem são os samaritanos?
Os samaritanos se autodenominam “Bnei Israel” — ou seja, filhos de Israel. Eles acreditam ser os verdadeiros descendentes dos antigos israelitas que habitaram a região de Samaria. Em contrapartida, não se consideram judeus e têm uma prática religiosa própria, o chamado samaritanismo.
Diferente dos judeus, eles:
- Rejeitam a dinastia davídica
- Não reconhecem Jerusalém como centro de adoração
- Consideram o Monte Gerizim o lugar sagrado original
- Seguem somente o Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia)
Além disso, os samaritanos acreditam que os judeus “se desviaram” da fé original quando retornaram do exílio na Babilônia e passaram a adaptar sua prática religiosa.
O Bom Samaritano
Talvez você já tenha escutado alguém dizer: “Fulano é um verdadeiro bom samaritano”, se referindo a uma pessoa generosa e altruísta. Esse uso figurado da palavra vem de uma das parábolas mais famosas de Jesus — a Parábola do Bom Samaritano, registrada em Lucas 10:30-37.
Na história, um homem é assaltado e deixado quase morto à beira da estrada. Um sacerdote e um levita (ambos judeus) passam por ele e não ajudam. Mas um samaritano — que, naquela época, era considerado “impuro” pelos judeus — para, cuida das feridas do homem e garante que ele seja tratado.
A lição? A verdadeira espiritualidade está no amor prático ao próximo, independentemente da origem, religião ou tradição.
Doutrina samaritana
A fé samaritana gira em torno de quatro pilares básicos:
- Um único Deus (o mesmo Deus de Israel)
- Um profeta — Moisés
- Um livro — o Pentateuco (versão samaritana)
- Um lugar sagrado — o Monte Gerizim
O Monte Gerizim, aliás, é o centro da vida espiritual dos samaritanos até hoje. É lá que acontecem as principais celebrações religiosas, inclusive o sacrifício de cordeiros na Páscoa samaritana.
Eles também utilizam o hebraico e o árabe no dia a dia, mas nas liturgias resgatam o antigo hebraico samaritano e aramaico, línguas faladas por seus ancestrais.
Duas versões da mesma história: samaritana vs. judaica
Versão Samaritana:
- Eles sempre estiveram ali, na terra de Israel.
- São os herdeiros legítimos da fé mosaica original.
- Rejeitam as mudanças trazidas pelo retorno do exílio babilônico.
- Consideram a religião judaica uma distorção das tradições antigas.
- Seu templo verdadeiro foi (e ainda é) o Monte Gerizim, não Jerusalém.
Versão Judaica:
- Os samaritanos são uma mistura de gentios e israelitas, feita após o exílio assírio (2 Reis 17:24).
- Foram vistos como estrangeiros religiosos, chamados de Kuthim.
- Sua fé é uma mistura sincrética e suas práticas foram modificadas ao longo do tempo.
- Rejeitaram profetas e distorceram a Torá para se adequar à sua teologia.
- São considerados “fora” do verdadeiro povo de Israel.
Vale lembrar que essas versões vêm de documentos antigos, muitas vezes parciais ou carregados de disputas religiosas e políticas da época.
Torá samaritana
Um ponto muito debatido é a diferença entre a Torá samaritana e a Torá judaica. Embora ambos os textos compartilhem a base dos cinco livros de Moisés, há variações importantes — especialmente em passagens que falam do local de adoração.
Curiosamente, muitos estudiosos apontam que a versão samaritana tem melhor fluidez narrativa e mais coerência em certas passagens. Mas, para os judeus, isso é visto como uma edição tardia e teologicamente motivada.
No fundo, essa diferença textual alimenta uma questão teológica central: quem está guardando a tradição original? Os samaritanos, que ficaram na terra? Ou os judeus, que voltaram do exílio?
Os samaritanos hoje
Com uma população pequena — cerca de 700 pessoas — os samaritanos vivem divididos entre dois mundos: Holon (Israel) e Nablus (Cisjordânia). Eles mantêm suas tradições milenares, realizam festas religiosas no Monte Gerizim, e seguem casando-se preferencialmente dentro do grupo.
Além da preservação religiosa, os samaritanos também enfrentam desafios modernos como:
- Casamentos limitados e questões genéticas por endogamia
- Pressões políticas e sociais no contexto Israel-Palestina
- A luta pela preservação da identidade cultural e religiosa
Mesmo com todos esses obstáculos, os samaritanos continuam sendo um testemunho vivo de uma das tradições mais antigas da humanidade.
Curiosidades sobre os samaritanos
- O Alcorão (livro sagrado do Islã) também menciona os samaritanos.
- Existem duas versões do Pentateuco samaritano preservadas hoje.
- A Páscoa samaritana ainda envolve sacrifícios de cordeiros, como no Antigo Testamento.
- A comunidade samaritana mantém um sumo sacerdote, descendente direto de Arão (irmão de Moisés).
- Eles têm um calendário próprio, diferente do hebraico e do gregoriano.
Samaria e os samaritanos nos lembram que a história nem sempre é contada por um só lado — e que versões divergentes podem coexistir por séculos. Ainda hoje, esse pequeno povo mantém viva uma chama antiga, feita de fé, rituais e resistência cultural.
Seja pela famosa parábola do Bom Samaritano ou pelas complexas disputas religiosas do passado, entender quem são os samaritanos é mergulhar num capítulo profundo — e muitas vezes esquecido — da herança bíblica.
Você pode se aprofundar muito mais na história, cultura e arqueologia Bíblica com a Bíblia Comentada. Clique aqui e saiba mais.





