Desde o século XIX, teólogos e estudiosos da Bíblia têm debatido uma interpretação curiosa sobre os dois primeiros versículos de Gênesis. Essa interpretação ficou conhecida como Teoria da Brecha (ou Teoria do Intervalo) e levanta a seguinte pergunta: será que houve um intervalo de bilhões de anos entre Gênesis 1:1 e Gênesis 1:2?
A proposta, por mais controversa que pareça, tenta unir achados científicos como fósseis e eras geológicas à narrativa bíblica da criação. Mas será que ela se sustenta? Neste blog, vamos explicar direitinho o que é essa teoria, de onde ela surgiu, seus argumentos principais e por que muitos estudiosos não a consideram coerente com o restante das Escrituras.

A Teoria da Brecha
A Teoria da Brecha afirma que entre os versículos de Gênesis 1:1 (“No princípio criou Deus os céus e a terra”) e Gênesis 1:2 (“E a terra era sem forma e vazia”) ocorreu um grande intervalo de tempo — possivelmente bilhões de anos.
De acordo com essa interpretação, Deus teria criado uma terra perfeita e habitada, com criaturas vivas (incluindo dinossauros e uma civilização pré-adâmica). Mas, após a rebelião de Lúcifer, esse mundo foi julgado e destruído. Isso teria resultado num estado caótico da terra — “sem forma e vazia” — até que, mais tarde, Deus a recriou a partir do versículo 2 em diante.
Quem criou essa teoria?
O primeiro a propor essa leitura foi o teólogo Thomas Chalmers, no início do século XIX. Seu objetivo era responder à descoberta crescente de fósseis e à ideia de uma terra muito antiga, sem abandonar a autoridade das Escrituras.
Curiosamente, Chalmers formulou sua teoria antes mesmo da publicação de “A Origem das Espécies” de Charles Darwin. Ou seja, sua preocupação não era necessariamente harmonizar a Bíblia com o evolucionismo, mas sim com dados geológicos emergentes.
Quais são os argumentos usados?
A Teoria da Brecha se apoia principalmente em três argumentos linguísticos e teológicos:
1. O “Vav” Hebraico (Conjunção)
No hebraico, a letra “Vav” pode ter função conjuntiva (e) ou disjuntiva (mas, no entanto). Os defensores da brecha dizem que Gênesis 1:2 traz um vav disjuntivo, sinalizando uma mudança de situação: do estado perfeito para o caótico.
2. O Verbo “era” (hayah) como “tornou-se”
O verbo “era” no hebraico pode ser traduzido como “tornou-se” quando há uma mudança clara de estado. Isso abriria espaço para entender que a Terra se tornou sem forma e vazia, em vez de ter sido criada assim.
3. Os Termos “sem forma e vazia” (tohu vavohu)
Esses termos são usados em outras passagens bíblicas (como em Jeremias 4:23) com conotação de julgamento ou destruição. A interpretação, então, é de que Deus teria destruído a Terra original por causa do pecado, antes de recriá-la.
Pré-Adâmicos, dinossauros e demônios?
Um dos aspectos mais ousados da teoria é a crença de que seres pré-adâmicos — humanos e animais — existiram antes de Adão e Eva. Os fósseis descobertos, segundo essa visão, seriam restos dessas criaturas.
Além disso, os defensores da teoria acreditam que os demônios seriam os espíritos desses seres, que perderam seus corpos no julgamento divino e hoje vagam pela terra.
Isso explicaria (segundo eles) as possessões demoníacas como uma tentativa desesperada desses espíritos em encontrar um corpo para habitar.
Críticas à Teoria da Brecha
Embora criativa, essa teoria não é amplamente aceita entre teólogos e estudiosos das Escrituras. Vamos aos principais contra-argumentos:
1. Silêncio Bíblico
Em nenhum lugar da Bíblia se menciona uma civilização anterior a Adão. A ideia de uma criação anterior destruída por Deus é uma inferência, não um ensino explícito.
2. A Criação foi chamada de “muito boa”
Em Gênesis 1:31, após terminar a criação, Deus declara que tudo era “muito bom”. Isso dificilmente combina com a ideia de uma terra sobre escombros fósseis ou marcada por um julgamento anterior.
3. A Morte Veio por Adão
Em Romanos 5:12, Paulo afirma claramente que a morte entrou no mundo por meio do pecado de Adão. Se houve morte antes dele, o argumento teológico da queda fica comprometido.
4. Gênesis 1:2 não descreve caos ou julgamento
O estado “sem forma e vazio” pode simplesmente indicar que a Terra ainda não havia sido moldada e preenchida. Isso é apoiado por passagens como Isaías 45:18 e Deuteronômio 32:10.
5. Problemas com a cronologia bíblica
Se a Terra de Gênesis 1:2 fosse resultado de uma criação anterior destruída, então essa terra e esse céu seriam os “segundos”, não os “primeiros”. No entanto, passagens como Apocalipse 21:1 e 2 Pedro 3:7 se referem claramente a esta terra atual como a primeira, o que contradiz a teoria da brecha.
O que Gênesis realmente diz?
O mais coerente com o texto hebraico e com o contexto geral da Bíblia é entender Gênesis 1:2 como uma descrição inicial da Terra ainda sem organização nem vida. Deus vai, dia após dia, dando forma (luz, separação de águas, terra firme) e preenchendo o vazio (astros, animais, seres humanos).
A ideia não é de uma recriação após destruição, mas sim de uma criação progressiva, em que Deus intencionalmente molda e preenche o mundo para torná-lo habitável e belo.
Continue estudando
A Teoria da Brecha é uma tentativa teológica de explicar o aparente conflito entre ciência moderna e o relato bíblico da criação. Apesar de interessante, ela carece de apoio textual sólido e contraria outros ensinamentos fundamentais das Escrituras — especialmente sobre a origem do mal, da morte e da salvação.
O mais coerente com o texto bíblico e sua estrutura é entender que Deus criou a terra progressivamente, partindo de um estado inicial desorganizado e vazio, para então dar forma e preenchê-la com vida — culminando na criação do ser humano e no descanso do sétimo dia.
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Uma resposta
A argila até que seja moldada também não tem forma…
E só solidifica depois de ir pro forno (no caso da terra, o sol…) por isso os movimentos ao redor do sol, os giros (movimentos) produzem a forma, “redonda”, molda-se… o sol aquece e a crosta se forma…