A Bíblia afirma que Deus se revelou progressivamente à humanidade. Desde os patriarcas até Moisés, há um desenvolvimento na compreensão do caráter divino. Mas como essa revelação dialoga com o contexto histórico e arqueológico do antigo Oriente Próximo?
Ao analisarmos inscrições antigas, estelas, santuários de pedra e registros de povos vizinhos de Israel, encontramos elementos que lançam luz sobre a religiosidade da época patriarcal. Termos como El, El Shaddai e até referências externas a uma divindade suprema mostram que o cenário religioso do segundo milênio antes de Cristo era mais complexo do que um simples contraste entre monoteísmo e idolatria.
Este artigo apresenta uma análise didática das evidências relacionadas ao Deus El, aos patriarcas e ao contexto do Êxodo.

O Deus El no mundo antigo
Entre os achados arqueológicos mais relevantes estão textos descobertos em Ugarit, antiga cidade localizada na região da atual Síria. Nesses textos aparece a figura de um deus supremo chamado El.
Mesmo dentro de um sistema politeísta, El é descrito como:
- Pai dos deuses
- Criador
- Soberano supremo
- Fonte de bênçãos e descendência
Em uma estela conhecida como o Épico de Keret, o rei suplica a El por filhos, e a divindade responde com benevolência. O paralelo com narrativas bíblicas, como a de Abraão pedindo descendência, é evidente.
Isso levanta uma questão interessante: o “El” de Ugarit seria o mesmo Deus adorado pelos patriarcas?
El na Bíblia Hebraica
No Antigo Testamento, “El” é uma das palavras usadas para Deus. Ela aparece isoladamente ou combinada com outros termos:
- El Shaddai (Deus Todo-Poderoso)
- El Elyon (Deus Altíssimo)
- Betel (Casa de Deus)
Em Gênesis 28, após o sonho da escada, Jacó declara que aquele lugar é “Betel” — casa de El. O uso do termo é significativo. O mesmo nome que aparece em textos cananeus é empregado na narrativa bíblica para designar o Deus verdadeiro.
Em Êxodo 6:3, Deus afirma:
“Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó como El Shaddai, mas pelo meu nome YHWH não lhes fui plenamente conhecido.”
Esse versículo sugere que houve uma revelação progressiva. O Deus adorado pelos patriarcas era o mesmo, mas o entendimento de Seu nome e caráter foi aprofundado no tempo de Moisés.
Tradição original e deturpação religiosa
Ao considerar a narrativa bíblica desde Adão até Noé e depois até Abraão, percebe-se um padrão: a verdade revelada por Deus é transmitida, mas com o tempo sofre distorções.
É comum que tradições religiosas antigas preservem fragmentos de uma verdade original. Assim como uma falsificação imita algo autêntico, crenças pagãs podem conter ecos distorcidos de revelações primitivas.
O episódio de Paulo em Atenas (Atos 17) ilustra isso. Ao encontrar um altar “ao Deus desconhecido”, ele reconhece ali um vestígio de busca sincera e o utiliza como ponto de contato para anunciar o Deus verdadeiro.
Da mesma forma, a presença de um “El” supremo em culturas vizinhas pode indicar reminiscências de uma tradição mais antiga sobre o Criador.
Pedras erguidas e culto sem imagem
Um dos aspectos mais intrigantes da religião patriarcal é a ausência inicial de imagens esculpidas. Em vez disso, vemos práticas como:
- Erigir pedras (maṣṣebot)
- Construir altares simples
- Derramar azeite sobre uma pedra
Gênesis 28 descreve Jacó levantando uma pedra e consagrando-a com azeite após seu sonho. Esse gesto encontra paralelos arqueológicos no Negev e no Sinai, onde foram descobertas pedras monolíticas erguidas há cerca de 4.000 anos.
Essas pedras:
- Não apresentam entalhes complexos
- São brutas e naturais
- Estão organizadas em círculos ou fileiras
Diferentemente dos templos monumentais da Mesopotâmia, esses santuários eram simples, a céu aberto, e frequentemente localizados em colinas.
Santuários do Negev e do Sinai
Escavações revelaram estruturas que incluem:
- Espaços delimitados por pedras
- Pequenos altares
- Tigelas de libação
- Restos de ossos de animais
Muitos desses locais datam do início da Idade do Bronze, período associado aos patriarcas.
Embora não seja possível afirmar categoricamente que esses altares pertenciam a adoradores do Deus bíblico, sua simplicidade e ausência de imagens elaboradas sugerem uma forma de culto distinta do politeísmo iconográfico predominante.
A religião patriarcal e a Idade do Bronze
Outro ponto relevante é a diferença entre a religião descrita em Gênesis e aquela praticada em períodos posteriores.
Características da era patriarcal incluem:
- Revelações diretas de Deus a indivíduos
- Menor antagonismo explícito entre hebreus e cananeus
- Uso predominante do nome El
Já nos períodos posteriores, especialmente após o Êxodo e durante a conquista de Canaã, o conflito religioso torna-se mais acentuado.
Isso sugere que o cenário espiritual da época de Abraão pode ter sido mais fluido, com grupos que preservavam traços de um monoteísmo primitivo ou monolatria.
Israel ou Isra-Yah?
O nome “Israel” também entra nesse debate. O sufixo “El” significa “Deus”. Assim, Israel pode ser entendido como “aquele que luta com Deus”.
Alguns estudiosos observam que o nome não contém diretamente o tetragrama YHWH, mas o termo El, o que pode refletir a fase patriarcal da revelação divina.
Essa observação não altera a identidade do Deus bíblico, mas reforça a ideia de progressão na compreensão de Seu nome.
Moisés em Midiã e a revelação no Horebe
Antes de retornar ao Egito, Moisés viveu em Midiã, região onde também existem vestígios arqueológicos de culto ao Deus supremo.
É possível imaginar que ele tenha tido contato com tradições locais que preservavam algum conhecimento do Criador. No entanto, a revelação no Horebe — a sarça ardente — marcou um ponto decisivo.
Ali, Deus não apenas reafirma Sua identidade, mas revela Seu nome de maneira mais explícita: “Eu Sou o que Sou” (Êxodo 3:14). Essa declaração ultrapassa qualquer concepção limitada de divindade tribal. Trata-se de uma afirmação de auto existência e soberania absoluta.
Fé e arqueologia
A arqueologia não substitui a fé. Ela oferece contexto, amplia a compreensão histórica e, em alguns casos, confirma práticas e nomes mencionados na Bíblia.
No caso do Deus El, das pedras erguidas e dos santuários do Negev, temos:
- Convergências linguísticas
- Paralelos culturais
- Evidências de culto antigo não iconográfico
Esses dados não provam cada detalhe do relato bíblico, mas demonstram que ele está inserido em um contexto histórico real.
Continue estudando
O estudo do Deus El e das evidências arqueológicas do Negev, Sinai e Canaã revela um cenário religioso complexo, mas fascinante. A fé bíblica não surge desconectada da história. Ela dialoga com culturas vizinhas, confronta distorções e preserva uma revelação progressiva do Criador.
Os patriarcas caminharam por terras onde outros povos também buscavam o divino. No entanto, a diferença fundamental estava na resposta à revelação recebida.
A Bíblia continua sendo o fio condutor dessa história — não apenas como documento antigo, mas como testemunho vivo de um Deus que se revela, chama e transforma.
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