A vida de Abraão ocupa um lugar central na narrativa bíblica e na teologia das Escrituras. Reconhecido como o “pai da fé”, ele se torna um modelo de confiança nas promessas divinas mesmo diante da incerteza, da espera prolongada e das provações. Em Gênesis 15, encontra-se um dos episódios mais profundos e simbólicos de sua trajetória: o estabelecimento formal da aliança entre Deus e o patriarca.
Esse capítulo não apenas reafirma promessas já feitas anteriormente, mas também apresenta um ritual de aliança que, à primeira vista, soa estranho ao leitor moderno. No entanto, quando analisado à luz da cultura e da arqueologia do Antigo Oriente Médio, o texto revela uma mensagem teológica poderosa sobre graça, fidelidade divina e justificação pela fé.

O chamado de Abraão e o significado de “Lekh Lechá”
O ponto de partida da história de Abraão ocorre em Gênesis 12, quando Deus o chama para deixar sua terra, sua parentela e a casa de seu pai. A expressão hebraica usada nesse chamado é lekh lechá, que pode ser traduzida como “vai por ti mesmo” ou “vai em direção ao teu destino”.
Esse chamado implica confiança absoluta. Abraão parte sem conhecer plenamente o destino final, sustentado apenas pela autoridade da voz divina. Esse movimento inaugura um padrão recorrente em sua vida: caminhar pela fé, não pela plena compreensão das circunstâncias.
A palavra do Senhor e a renovação da promessa
Em Gênesis 15, o texto afirma que “a palavra do Senhor veio a Abrão em visão”. A expressão hebraica devar Adonai sugere mais do que uma mensagem verbal; indica uma manifestação pessoal da palavra divina, compreendida por muitos intérpretes como uma teofania.
Deus reafirma sua promessa: Abrão teria uma grande recompensa e uma descendência numerosa. No entanto, o patriarca expressa sua angústia. Sem filhos e já avançado em idade, sua herança parecia destinada ao seu servo Eliezer, de Damasco. A resposta divina é clara: o herdeiro viria do próprio ventre de Abrão.
As estrelas do céu
Deus conduz Abrão para fora da tenda e o convida a contemplar o céu estrelado. Assim como as estrelas são incontáveis, também seria sua descendência. O texto bíblico registra então uma das declarações mais importantes de toda a Escritura: “Abrão creu no Senhor, e isso lhe foi imputado como justiça”.
Essa afirmação se torna fundamental tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. A justiça não é atribuída a Abrão por obras, méritos ou rituais, mas pela fé. Séculos depois, o apóstolo Paulo usará esse episódio como base para explicar a doutrina da justificação pela fé.
O ritual da aliança
Após reafirmar suas promessas, Deus orienta Abrão a preparar um ritual específico: uma novilha, uma cabra, um carneiro, uma rolinha e um pombinho. Os animais maiores são cortados ao meio, formando um corredor entre as partes.
No Antigo Oriente Médio, esse tipo de ritual era comum em pactos e tratados. Documentos arqueológicos, como as Cartas de Mari, os tratados hititas e textos encontrados em Alalakh, descrevem cerimônias semelhantes. As partes envolvidas passavam entre os animais cortados segurando tochas, simbolizando um juramento solene: quem quebrasse o pacto sofreria o mesmo destino do animal sacrificado.
A espera
Após preparar os animais, Abrão aguarda a manifestação divina. O tempo passa, aves de rapina descem sobre os cadáveres e o patriarca as afugenta. Ao cair da noite, um profundo sono o envolve, acompanhado de temor e densas trevas.
Durante esse estado, Deus revela o futuro de seus descendentes: seriam peregrinos em terra estrangeira, sofreriam aflição e escravidão por cerca de 400 anos, mas depois seriam libertos com grandes riquezas. Essa profecia antecipa o período da escravidão no Egito e o êxodo do povo de Israel.
A tocha de fogo
O momento central do capítulo ocorre quando um fogareiro fumegante e uma tocha de fogo passam entre os animais partidos. Esse fogo simboliza a presença do próprio Deus selando a aliança.
O detalhe mais significativo é que apenas Deus passa entre os animais. Abrão não segura uma tocha, nem atravessa o corredor. Isso marca uma ruptura radical com os pactos humanos tradicionais.
O significado da aliança unilateral
Nos tratados antigos, ambas as partes assumiam obrigações equivalentes. Em Gênesis 15, porém, a responsabilidade pelo cumprimento da aliança recai inteiramente sobre Deus. A promessa não depende da capacidade humana de Abrão, mas da fidelidade divina.
Esse gesto comunica que:
- A garantia da promessa pertence a Deus
- A aliança é sustentada pela graça
- O cumprimento não se baseia em obras humanas
Esse princípio ecoa mais tarde na teologia cristã: a salvação é dom de Deus, recebida pela fé, não por méritos.
Abraão, Cristo e a aliança eterna
A promessa feita a Abraão não se limita à formação de uma nação. Em Gênesis 12, Deus declara que, por meio dele, todas as famílias da terra seriam abençoadas. O Novo Testamento interpreta essa promessa como cumprida em Jesus Cristo, descendente de Abraão segundo a carne.
Assim, a aliança firmada em Gênesis 15 aponta além do próprio patriarca. Ela se estende à história da redenção, culminando no sacrifício de Cristo, que sela definitivamente a aliança por meio do sangue.
Quer se aprofundar mais? Continue estudando com A Bíblia Comentada. Clique aqui e saiba mais.






Uma resposta
Glória a Deus 🙏🏻
Confiança em Deus devemos ter.