Sifrá e Puá: as parteiras do Êxodo

Por <b>Rodrigo Silva</b>

Por Rodrigo Silva

Arqueólogo

Em meio à opressão do Egito, quando o povo hebreu crescia e começava a preocupar o faraó, uma ordem cruel foi decretada: todo menino hebreu deveria ser morto ao nascer (Êxodo 1:15-16).

 

Era uma tentativa clara de controle populacional — e, mais do que isso, de destruição de um povo.

 

Mas, no meio desse cenário tenso e perigoso, duas mulheres se destacam: Sifrá e Puá. Parteiras, aparentemente comuns, mas que protagonizam um dos atos mais antigos e poderosos de resistência moral da história bíblica.

A ordem de faraó: controle e opressão

 

“Quando vocês ajudarem as hebreias a dar à luz, verifiquem se é menino ou menina; se for menino, matem-no; se for menina, deixem-na viver.” (Êxodo 1:16)

 

Essa ordem revela muito sobre o momento histórico:

  • Medo do crescimento do povo hebreu
  • Tentativa de enfraquecer uma futura geração
  • Uso do poder político para impor violência

 

Era uma decisão estratégica e profundamente desumana.

 

O papel das parteiras na sociedade antiga

Para entender o impacto da decisão de Sifrá e Puá, é importante lembrar que parteiras tinham um papel crucial.

 

Elas eram:

  • Testemunhas do nascimento
  • Responsáveis pela vida do recém-nascido
  • Figuras de confiança nas comunidades

 

Ou seja, faraó escolheu justamente pessoas-chave para executar sua ordem.

 

A decisão que mudou tudo

 

O texto continua:

“As parteiras, porém, temeram a Deus e não fizeram o que o rei do Egito lhes havia ordenado; deixaram viver os meninos.” (Êxodo 1:17)

 

No hebraico, a ideia é ainda mais forte: elas fizeram viver os meninos.

 

Não foi apenas omissão. Foi uma ação consciente.

 

Elas escolheram:

  • Desobedecer ao rei mais poderoso da época
  • Arriscar suas próprias vidas
  • Permanecer fiéis a Deus

 

Desobediência civil: um conceito antigo

 

Hoje usamos o termo “desobediência civil” para descrever ações pacíficas contra leis injustas.

 

E, curiosamente, Sifrá e Puá são um exemplo clássico disso — muito antes de o conceito existir formalmente.

 

Um paralelo interessante pode ser feito com Martin Luther King Jr., que liderou movimentos pacíficos contra leis racistas nos Estados Unidos.

 

Assim como ele:

  • Não promoveram violência
  • Não responderam opressão com caos
  • Resistiram de forma consciente e ética

 

A diferença? Sifrá e Puá fizeram isso milhares de anos antes.

 

A linguagem do texto: “sobre as pedras”

 

Há um detalhe curioso no texto original hebraico. Em vez de simplesmente dizer “quando ajudarem no parto”, o texto usa uma expressão ligada a “pedras” (ovnayim).

 

Essa expressão pode estar relacionada à prática antiga do parto, possivelmente envolvendo estruturas semelhantes às usadas por oleiros — duas pedras ou suportes.

 

Uma conexão cultural interessante

 

No Egito antigo, o trabalho do oleiro era comum e simbólico. O vaso de barro sendo moldado sobre rodas giratórias lembrava, para eles, a própria criação da vida.

 

Algumas representações egípcias mostram deuses moldando o ser humano como barro.

 

Essa imagem ajuda a entender a expressão:
o momento do parto era visto como um processo de “formação da vida”.

 

Assim, “ver as mulheres sobre as pedras” era uma forma idiomática de dizer: estar no momento do nascimento.

 

O silêncio das outras parteiras

 

Um detalhe chama atenção: apenas Sifrá e Puá são mencionadas. Mas havia milhares de hebreus no Egito. Certamente existiam mais parteiras.

 

Então surge a pergunta: Onde estavam as outras?

 

O texto não responde diretamente, mas sugere algo importante:

 

  • Nem todos tiveram coragem de resistir
  • Nem todos escolheram o risco

 

Isso torna a atitude dessas duas mulheres ainda mais significativa.

 

Temor de Deus vs. medo dos homens

 

O texto diz que elas “temeram a Deus”. Esse ponto é central.

 

A Bíblia apresenta dois tipos de medo:

 

1. Temor saudável (reverência)

  • Respeito
  • Consciência
  • Sabedoria (Provérbios 9:10)

2. Medo paralisante (covardia)

  • Insegurança extrema
  • Submissão ao erro
  • Falta de ação diante do injusto

Sifrá e Puá escolheram o primeiro. Elas não ignoraram o perigo — mas decidiram que obedecer a Deus era mais importante do que obedecer a faraó.

 

A recompensa inesperada

 

Mais adiante, o texto diz: “Deus foi bondoso com as parteiras…” (Êxodo 1:20)

 

E mais: Ele lhes concedeu famílias. Além disso, algo raro acontece na Bíblia antiga: seus nomes são registrados.

 

Isso é significativo.

 

Em muitos textos, mulheres nem sequer são nomeadas. Mas aqui, seus nomes são preservados.

 

Por quê? Porque suas ações foram extraordinárias.

 

O impacto dessa decisão

 

Pode parecer um gesto pequeno — apenas duas mulheres desobedecendo uma ordem.

 

Mas o impacto é enorme:

  • Crianças foram salvas
  • A linhagem de Israel continuou
  • O plano de Deus seguiu adiante

 

Inclusive, sem esse tipo de resistência, figuras como Moisés talvez nem tivessem sobrevivido.

 

O que essa história nos ensina hoje?

 

Mesmo em um contexto totalmente diferente, essa narrativa continua extremamente relevante.

 

1. Nem toda autoridade é absoluta

Quando uma ordem é injusta, surge um conflito moral.

 

2. Coragem nem sempre faz barulho

Às vezes, os maiores atos de resistência são silenciosos.

 

3. Fazer o certo pode custar caro

Mas também pode gerar impacto duradouro.

 

4. Poucos fazem a diferença

Nem sempre a maioria está certa.

 

Continue estudando

 

A história de Sifrá e Puá mostra que coragem não depende de posição social, poder ou visibilidade.

 

Duas mulheres, em um sistema opressor, escolheram fazer o que era certo — mesmo sob risco.

 

Talvez a grande pergunta que fica é: quando confrontados com escolhas difíceis, a quem decidimos obedecer?

 

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