Em meio à opressão do Egito, quando o povo hebreu crescia e começava a preocupar o faraó, uma ordem cruel foi decretada: todo menino hebreu deveria ser morto ao nascer (Êxodo 1:15-16).
Era uma tentativa clara de controle populacional — e, mais do que isso, de destruição de um povo.
Mas, no meio desse cenário tenso e perigoso, duas mulheres se destacam: Sifrá e Puá. Parteiras, aparentemente comuns, mas que protagonizam um dos atos mais antigos e poderosos de resistência moral da história bíblica.

A ordem de faraó: controle e opressão
“Quando vocês ajudarem as hebreias a dar à luz, verifiquem se é menino ou menina; se for menino, matem-no; se for menina, deixem-na viver.” (Êxodo 1:16)
Essa ordem revela muito sobre o momento histórico:
- Medo do crescimento do povo hebreu
- Tentativa de enfraquecer uma futura geração
- Uso do poder político para impor violência
Era uma decisão estratégica e profundamente desumana.
O papel das parteiras na sociedade antiga
Para entender o impacto da decisão de Sifrá e Puá, é importante lembrar que parteiras tinham um papel crucial.
Elas eram:
- Testemunhas do nascimento
- Responsáveis pela vida do recém-nascido
- Figuras de confiança nas comunidades
Ou seja, faraó escolheu justamente pessoas-chave para executar sua ordem.
A decisão que mudou tudo
O texto continua:
“As parteiras, porém, temeram a Deus e não fizeram o que o rei do Egito lhes havia ordenado; deixaram viver os meninos.” (Êxodo 1:17)
No hebraico, a ideia é ainda mais forte: elas fizeram viver os meninos.
Não foi apenas omissão. Foi uma ação consciente.
Elas escolheram:
- Desobedecer ao rei mais poderoso da época
- Arriscar suas próprias vidas
- Permanecer fiéis a Deus
Desobediência civil: um conceito antigo
Hoje usamos o termo “desobediência civil” para descrever ações pacíficas contra leis injustas.
E, curiosamente, Sifrá e Puá são um exemplo clássico disso — muito antes de o conceito existir formalmente.
Um paralelo interessante pode ser feito com Martin Luther King Jr., que liderou movimentos pacíficos contra leis racistas nos Estados Unidos.
Assim como ele:
- Não promoveram violência
- Não responderam opressão com caos
- Resistiram de forma consciente e ética
A diferença? Sifrá e Puá fizeram isso milhares de anos antes.
A linguagem do texto: “sobre as pedras”
Há um detalhe curioso no texto original hebraico. Em vez de simplesmente dizer “quando ajudarem no parto”, o texto usa uma expressão ligada a “pedras” (ovnayim).
Essa expressão pode estar relacionada à prática antiga do parto, possivelmente envolvendo estruturas semelhantes às usadas por oleiros — duas pedras ou suportes.
Uma conexão cultural interessante
No Egito antigo, o trabalho do oleiro era comum e simbólico. O vaso de barro sendo moldado sobre rodas giratórias lembrava, para eles, a própria criação da vida.
Algumas representações egípcias mostram deuses moldando o ser humano como barro.
Essa imagem ajuda a entender a expressão:
o momento do parto era visto como um processo de “formação da vida”.
Assim, “ver as mulheres sobre as pedras” era uma forma idiomática de dizer: estar no momento do nascimento.
O silêncio das outras parteiras
Um detalhe chama atenção: apenas Sifrá e Puá são mencionadas. Mas havia milhares de hebreus no Egito. Certamente existiam mais parteiras.
Então surge a pergunta: Onde estavam as outras?
O texto não responde diretamente, mas sugere algo importante:
- Nem todos tiveram coragem de resistir
- Nem todos escolheram o risco
Isso torna a atitude dessas duas mulheres ainda mais significativa.
Temor de Deus vs. medo dos homens
O texto diz que elas “temeram a Deus”. Esse ponto é central.
A Bíblia apresenta dois tipos de medo:
1. Temor saudável (reverência)
- Respeito
- Consciência
- Sabedoria (Provérbios 9:10)
2. Medo paralisante (covardia)
- Insegurança extrema
- Submissão ao erro
- Falta de ação diante do injusto
Sifrá e Puá escolheram o primeiro. Elas não ignoraram o perigo — mas decidiram que obedecer a Deus era mais importante do que obedecer a faraó.
A recompensa inesperada
Mais adiante, o texto diz: “Deus foi bondoso com as parteiras…” (Êxodo 1:20)
E mais: Ele lhes concedeu famílias. Além disso, algo raro acontece na Bíblia antiga: seus nomes são registrados.
Isso é significativo.
Em muitos textos, mulheres nem sequer são nomeadas. Mas aqui, seus nomes são preservados.
Por quê? Porque suas ações foram extraordinárias.
O impacto dessa decisão
Pode parecer um gesto pequeno — apenas duas mulheres desobedecendo uma ordem.
Mas o impacto é enorme:
- Crianças foram salvas
- A linhagem de Israel continuou
- O plano de Deus seguiu adiante
Inclusive, sem esse tipo de resistência, figuras como Moisés talvez nem tivessem sobrevivido.
O que essa história nos ensina hoje?
Mesmo em um contexto totalmente diferente, essa narrativa continua extremamente relevante.
1. Nem toda autoridade é absoluta
Quando uma ordem é injusta, surge um conflito moral.
2. Coragem nem sempre faz barulho
Às vezes, os maiores atos de resistência são silenciosos.
3. Fazer o certo pode custar caro
Mas também pode gerar impacto duradouro.
4. Poucos fazem a diferença
Nem sempre a maioria está certa.
Continue estudando
A história de Sifrá e Puá mostra que coragem não depende de posição social, poder ou visibilidade.
Duas mulheres, em um sistema opressor, escolheram fazer o que era certo — mesmo sob risco.
Talvez a grande pergunta que fica é: quando confrontados com escolhas difíceis, a quem decidimos obedecer?
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